quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Júlio Barroso





Certa feita, durante o enterro do jornalista e compositor Júlio Barroso, Lobão e Cazuza, que eram amigos, admiradores e parceiros de Júlio, esticaram uma carreira de cocaína sobre o caixão e mandaram ver um tiro em homenagem ao falecido.


A despeito da morbidez do fato, é notável como algumas pessoas suscitam atitudes que contemplem o dionisíaco e o excesso até na hora da sua morte. Já li diversos relatos sobre a morte de artistas, músicos e poetas nos quais são descritos embriaguez e júbilo entre os amigos que continuariam por aqui, durante o rito de passagem.


O artista morreu de forma trágica, em 1984, após cair do quarto de um hotel em circunstâncias desconhecidas, assim como o trompetista Chet Baker em Amsterdam. É provável que tenha sido acidental, como relata Nelson Motta no livro “Noites Tropicais”, que cogita a possibilidade de Julio estar “bebendo, trepando, cantando, ou tudo isso ao mesmo tempo”, (ou algo parecido com isso, já que não estou com o livro à mão).


Júlio Barroso é considerado um dos precursores do movimento “new wave” no Brasil, após ter fundado a Gang 90 & as Absurdetes, que levantou o Maracanãzinho no festival MPB-Shell, em 1981, com a música “Perdidos na Selva”, de co-autoria de Guilherme Arantes. A performance de Júlio foi impagável. Diante de uma plateia entusiasmada, ele fazia da apresentação uma performance, já que seus dotes vocais eram limitados. No entanto, ele compensava com atitude punk: um caro alto, esguio, com óculos grossos, cuspindo a letra com vontade. Levantou a multidão.


Antes de tornar-se conhecido como band leader, Júlio foi um jornalista muito influente, pois trazia informações de primeira ordem nos tempos de abertura política sobre música e comportamento, com um texto vibrante, seco, direto, muito influenciado pelos autores beats, que começavam a circular à época traduzidos, aqui no Brasil. Há um tempo, o jornalista do Estado, Jotabê Medeiros, publicou um texto inédito que Júlio escreveu sobre Chuck Berry publicado na revista “Somtrês”, em 1981.


Durante o começo da década de 80, compôs diversas músicas com Lobão, que recentemente gravou duas inéditas do amigo (e ídolo) no álbum “Canções dentro da noite escura”. Por hora, vou deixar a letra de uma homenagem lancinante (não estou conseguindo postar o vídeo aqui)

ao escritor Jack Kerouac:



Jack Kerouac


Alice Pink Pank/Julio Barroso

Ontem a noite eu sonhei
que eu era Jack Kerouac
E subi num terraço: rua Houston
E vi as duas torres gêmeas brilhando.

O cabelo louro da menina
As tranças negras do crioulo
A sua guitarrra - a sua angústia calma.

Eu desci
Peguei a minha lata de spray
Sai pela rua, pintei dois olhos verdes nas paredes.

Ontem a noite eu sonhei
que conversava com Jack Kerouac
Ele chegava e me dizia
“Hey Man! eu renasci black
E agora sou um tocador de piston!”
Eu só sei que o som era tão alto que despertou o mundo inteiro
Eu acordei, e saí mandando brasa nas estradas do mundo.

Ei Jack! Bye Bye

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