Anestesia. A folha em branco; a assepsia da sala de cirurgia vazia; lavar bem as mãos de forma obssessiva, aqui, não adianta, não faz diferença; elas podem aprodrecer como naquele poema do Drummond.
Vista turva por de trás das janelas embaçadas, ou por causa da chuva ou pela respiração ofegante das almas.
Aqui não há amores de novela, helicópteros de novela, serviçais de novela. Aqui as palavras são um imenso novelo e nós somos gatos perseguindo a ponta que dele se desenrola.
Não tem ninguém perguntado se você quer um drink. Não tem ninguém perguntando sobre o significado da palavra solipsismo. Há uma garrafa contendo um último raio lunar, livros caindo pelas tabelas, guardanapos rabiscados como palimpsestos, borrados, manchados, como um pedaço de papiro amarelado.
Les amours jaunes, coletânea do poeta Tristán Corbiere ao meu lado. Seu primeiro livro: Ça - isso. Suspenso na página em branco. Branco por todos os lados. Ça.
O novelo acaba, a malha está pronta para o uso, mas o frio continua intenso lá fora; portanto, um novo cachecol é preciso ser confecionado. E quando o verão chegar? O que escrever?
Logo a escrita recomeça, inútil como forte chuva dentro do mar, aquela que Kerouac percebeu e passou a utilizar em suítes musicais ou sínteses de haicais.
Useless, uselles/ the heavy rain/ into the sea.
Não escrevo. Apenas ouço o som do teclado e começo a respirar. (Carlinhos Oliveira).
i.ma.go sf (lat imago) Entom Inseto em seu estádio final, adulto, sexualmente maduro, comumente alado. sm Psicol Modelo, justificado ou não, de uma pessoa amada, formado na infância e que se conserva sem modificação na vida adulta.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
sábado, 3 de outubro de 2009
OUVIDOS ATENTOS!

1) Antes da Boa-Nova ser anunciada, pausa mediúnica para a fala do poeta Waly Salomão. Oxossi, arco e flecha certeira:
- A felicidade do negro é uma felicidade GUERREIRA.
2) A Folha de S. Paulo divulgou na “Ilustrada”, última terça-feira, o lançamento póstumo de 26 canções do cantor e compositor Itamar Assumpção, que devem sair em meados de 2010, integrando a Caixa Preta, projeto supervisionado pela sua filha Anelis Assumpção.
A Caixa Preta conterá todo o legado musical de Itamar, 12 álbuns remasterizados, que foram lançados de forma alternativa por Itamar ao longo da sua carreira, a maior parte deles pela loja/selo Baratos Afins, localizada na Galeria do Rock, onde ainda é possível encontrar as maravilhas do Nego Dito.
No songbook de Itamar ("O livro de canções e histórias de Itamar Assumpção"), o jornalista, amigo e músico Luiz Chagas, que o acompanhou desde o álbum clássico Beleléu, Leléu Eu, descreveu o esboço do projeto a respeito da “Caixa-Preta”:
- No final dos anos 1990, Itamar percebeu que seria inviável relançar os discos como queria, remixados, já que os registros originais haviam se perdido. Para driblar esse percalço, o artista arquitetou uma saída como sempre original. Na falta dos discos originais, regravaria os discos que fez, com os arranjos originais, nota por nota. Clara Bastos foi encarregada de fazer essas transcrições e as Orquídeas seriam a banda de base à qual se juntariam Iscas (de Polícia) e outros poucos convidados, conforme a música. Tinha até escolhido um nome para o projeto: seria Caixa Preta. A fotógrafa Vânia Toledo foi solicitada para fazer a parte visual.
As 26 canções que foram ouvidas pelo repórter da Folha, Marcus Preto, comporiam a trilogia programada por Itamar para fechar o primeiro álbum que fora idealizado, em 1998, Pretobrás – Por que eu não pensei nisso antes?. Seria o segundo ciclo de trilogias do músico na década de 90, sendo o primeiro composto pela banda Orquídeas do Brasil que gravou o Bicho de sete cabeças, I, II, III.
"Todo dia eu saio por aí/tentando descobrir o que ninguém já houvesse descoberto algum dia".
No ínterim de 1998 a 2003, ano da sua morte, Itamar deixou o inacabado Isso vai dar repercussão, gravado em parceria com Naná Vasconcelos. Durante o processo criativo para composição e gravação do álbum, Itamar já convalescia de um câncer no intestino, mas utilizou o tempo escasso que ainda lhe faltava para compor incessantemente.
Naná Vasconcelos relata na matéria da Folha que diariamente Itamar levava idéias de letras e canções para o estúdio (às vezes, recém saído da sessão de quimioterapia), onde os dois trabalhavam nesse álbum de apenas sete músicas, mas extremamente expressivo, um rico manifesto de duas cabeças iluminadas, celebrando a cultura antropofágica:
- “Eu tenho o cabelo duro/ mas não o miolo mole/ (...) sushi com chuchu misturo/quibebe com ravióli/ chopp claro com escuro/ empada com rocambole."
- “Na próxima encarnação/ não quero saber de barra/ replay de formiga não/ eu quero nascer cigarra”.
- “Meu amor por você chegou ao fim/ é tudo que tenho a dizer/ também não precisa sair assim/espere o dia amanhecer.”
- “Culturalmente confuso/ brasileiro é aculturado/ líbio, libanês, árabe, turco, acha/ farinha do mesmo saco/ não saca croata, curdo/não saca iuguslavo/ nem belga nem mameluco/ não saca Plutão nem Plutarco/ (....) Kafka, Freud Confúcio/ não saca que russo é cossaco”.
- OUVIDOS ATENTOS – ano que vem o Nego Dito estará de volta. Em sua melhor forma: acesso irrestrito à sua formidável obra.
domingo, 27 de setembro de 2009
Uma história Zen

O Zen-Budismo revela a grande influência do Taoísmo em suas histórias. Uma delas fala de Nan-in, um mestre japonês que viveu durante a época Meiji (1868-1912). Certa vez vai visitá-lo um professor universitário que desejava conhecer o Zen. Segundo a etiqueta, Nan-in convida-o a sentar. Começa a servir o chá. A xícara do visitante já está cheia, mas Nan-in continua imperturbável derramando o chá, que principia a escorrer pelo chão. O professor observa o transbordamento, e não podendo mais conter-se exclama: “A xícara já está cheia! Chegou o momento de parar”. Ao que Nan-in observa: “Assim como esta xícara, também estás cheio de conceitos e especulações. Como poderei mostrar-te o Zen, se não te esvaziares primeiro?”.
Do livro "Tao Te Ching" - Editora Pensamento.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Política Divina - A Frente Parlamentar Evangélica
Planejo postar trechos de capítulos do meu TCC, realizado em parceria com o irmão de todas as horas Rafael Costa, e colocar em circulação algumas pérolas colhidas durante as entrevistas que realizamos em abril de 2006, em Brasília, com a tropa de choque da Frente Parlamentar Evangélica que atuou durante o primeiro mandato do presidente Lula. Alguns trechos serão estrategicamente dispostos de forma aleatória, de modo a compor um mosaico de ideias e intenções. Esse perfil é o do deputado federal Hidekazu Takayama, do Paraná. Enjoy.
Deputado Hidekazu Takayama: o Condutor
Estou aqui para trabalhar e me somar nesta Casa, e espero, nesses quatro anos, dar a minha contribuição — sacrificando-me até por estar distante da minha família — para o crescimento de um país que meus pais queriam quando aqui chegaram, e que eu quero deixar para meus filhos e netos.
Pronunciamento realizado em plenário no dia 28/02/2003
“Por graça e benção de Deus eu nunca pensei em ser político”. Para o deputado Hidekazu Takayama (PMDB/PR) a maior dificuldade em exercer a atividade de parlamentar evangélico pode ser baseada em uma hipotética resposta sobre a seguinte pergunta: qual a dificuldade para o senhor em ser nipo-brasileiro?; nenhuma!. Assim como nascer com os olhos pequenos e puxados, ser político para Takayama foi mera conseqüência, pois nunca pôde determinar nem uma coisa nem outra.
Como provável decorrência de tal imprevisibilidade para ingressar na vida pública, o deputado Takayama é um tanto quanto confuso em relação à ideologia político-partidária; transita com desenvoltura por vários deles.
Seus mandatos eletivos contemplam uma eleição a Deputado Estadual, 1999-2002, pelo PFL; depois, foi eleito deputado federal para os anos 2003-2007, pelo PTB; em 2003, após eleito, foi para o PSB, onde permaneceu por breve período, e novamente para o PMDB, mesmo partido ao qual foi ligado entre 1989 e 1992.
*
A entrevista com o deputado Takayama foi concedida logo após o culto que a FPE realiza todas as quartas-feiras de manhãs, na Área das Plenárias. Ao final do culto, fizemos o contato com ele e o acompanhamos até seu gabinete.
É de praxe nos cultos da Frente Parlamentar Evangélica que sua condução litúrgica seja revezada entre dois ou mais deputados. Takayama conduziu o culto naquela manhã do (dia 5 de abril, que conferimos in loco) após a pregação do pastor e deputado Pedro Ribeiro Por quase duas horas permanecemos sob os gritos exaltados de “Aleluia” ou “Glória a Deus” dos participantes.
Takayama escolheu a reserva moral como mote para dissertação e orientação espiritual dos presentes. Falou também sobre a discriminação que sofrem os parlamentares evangélicos, pois vários colegas ateus consideram a religião “um suicídio intelectual”; falou sobre o Apocalipse, a Culminação Final dos Tempos, sob a ótica dos tsunamis, de um furacão no sul do Brasil, das guerras religiosas ou ainda a presença da pedofilia na religião. Classificou a função dos deputados evangélicos como “um duplo sacerdócio – cívico e espiritual”.
Em sua avaliação, o culto é fundamental para a estabilidade da FPE. Somente ali encontram as origens que não podem ser esquecidas dentro do massacrante jogo de poder que tritura os homens engravatados de Brasília. O deputado sintetiza cruamente a opressão de tal poder, que poderia ser uma epígrafe em letras garrafais e luminosas para uma lápide do Congresso Nacional:
- Isso aqui é uma máquina de fazer ateu. O jogo do poder é muito forte. E se você não tiver consciência na vida vai se transformar num Judas da vida,vai vender Jesus por merrequinha.
Em última análise Takayama constata sob o prisma religioso nossa tragédia política e social. A palavra grega tragédia etimologicamente significa canto dos bodes, pois na origem do gênero teatral o coro trágico era composto por indivíduos disfarçados com peles de bodes, sátiros que simbolizavam os instintos primários do homem.
E para os gregos, em cada tragédia havia sempre uma realidade religiosa, um conflito entre a vontade divina e as aspirações humanas. E quem logra a vitória? Apenas os heróis, predestinados pelos deuses, que há muito ultrapassaram a média da humanidade.
Deputado Hidekazu Takayama: o Condutor
Estou aqui para trabalhar e me somar nesta Casa, e espero, nesses quatro anos, dar a minha contribuição — sacrificando-me até por estar distante da minha família — para o crescimento de um país que meus pais queriam quando aqui chegaram, e que eu quero deixar para meus filhos e netos.
Pronunciamento realizado em plenário no dia 28/02/2003
“Por graça e benção de Deus eu nunca pensei em ser político”. Para o deputado Hidekazu Takayama (PMDB/PR) a maior dificuldade em exercer a atividade de parlamentar evangélico pode ser baseada em uma hipotética resposta sobre a seguinte pergunta: qual a dificuldade para o senhor em ser nipo-brasileiro?; nenhuma!. Assim como nascer com os olhos pequenos e puxados, ser político para Takayama foi mera conseqüência, pois nunca pôde determinar nem uma coisa nem outra.
Como provável decorrência de tal imprevisibilidade para ingressar na vida pública, o deputado Takayama é um tanto quanto confuso em relação à ideologia político-partidária; transita com desenvoltura por vários deles.
Seus mandatos eletivos contemplam uma eleição a Deputado Estadual, 1999-2002, pelo PFL; depois, foi eleito deputado federal para os anos 2003-2007, pelo PTB; em 2003, após eleito, foi para o PSB, onde permaneceu por breve período, e novamente para o PMDB, mesmo partido ao qual foi ligado entre 1989 e 1992.
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A entrevista com o deputado Takayama foi concedida logo após o culto que a FPE realiza todas as quartas-feiras de manhãs, na Área das Plenárias. Ao final do culto, fizemos o contato com ele e o acompanhamos até seu gabinete.
É de praxe nos cultos da Frente Parlamentar Evangélica que sua condução litúrgica seja revezada entre dois ou mais deputados. Takayama conduziu o culto naquela manhã do (dia 5 de abril, que conferimos in loco) após a pregação do pastor e deputado Pedro Ribeiro Por quase duas horas permanecemos sob os gritos exaltados de “Aleluia” ou “Glória a Deus” dos participantes.
Takayama escolheu a reserva moral como mote para dissertação e orientação espiritual dos presentes. Falou também sobre a discriminação que sofrem os parlamentares evangélicos, pois vários colegas ateus consideram a religião “um suicídio intelectual”; falou sobre o Apocalipse, a Culminação Final dos Tempos, sob a ótica dos tsunamis, de um furacão no sul do Brasil, das guerras religiosas ou ainda a presença da pedofilia na religião. Classificou a função dos deputados evangélicos como “um duplo sacerdócio – cívico e espiritual”.
Em sua avaliação, o culto é fundamental para a estabilidade da FPE. Somente ali encontram as origens que não podem ser esquecidas dentro do massacrante jogo de poder que tritura os homens engravatados de Brasília. O deputado sintetiza cruamente a opressão de tal poder, que poderia ser uma epígrafe em letras garrafais e luminosas para uma lápide do Congresso Nacional:
- Isso aqui é uma máquina de fazer ateu. O jogo do poder é muito forte. E se você não tiver consciência na vida vai se transformar num Judas da vida,vai vender Jesus por merrequinha.
Em última análise Takayama constata sob o prisma religioso nossa tragédia política e social. A palavra grega tragédia etimologicamente significa canto dos bodes, pois na origem do gênero teatral o coro trágico era composto por indivíduos disfarçados com peles de bodes, sátiros que simbolizavam os instintos primários do homem.
E para os gregos, em cada tragédia havia sempre uma realidade religiosa, um conflito entre a vontade divina e as aspirações humanas. E quem logra a vitória? Apenas os heróis, predestinados pelos deuses, que há muito ultrapassaram a média da humanidade.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Loki?

Há algumas semanas assisti o documentário “Loki”, sobre o genial Arnaldo Baptista, nome esse pescado de um álbum seu de 1974, o primeiro composto após a traumática saída dos Mutantes, o grupo mais revolucionário da história da música brasileira – não é qualquer banda que mistura psicodelia inglesa com música caipira, soul & pontos de umbanda, Orestes Barbosa & Sílvio Caldas misturado a recursos de sonoplastia que simulam sons de metralhadoras e vidro quebrado - tudo isso em plena ditadura militar, sem internet e, sobretudo, quando Rita, Sérgio e Arnaldo eram muito, muito jovens.
Durante a década de 70, Arnaldo amargou anos em uma constante e profunda depressão, ocasionada, sobretudo, por seu rompimento com Rita Lee, com os Mutantes (já em sua fase 100% progressive rock, quando foram morar na Serra da Cantareira) e pelo uso contínuo e desbragado de LSD e outras drogas. O Arnaldo que emergiu desse cenário aparentava um aspecto doentio, desconectado com a “realidade”, mas ainda genial em suas composições.
Não conheço ninguém que tenha o álbum “Loki”, que comprei aos 20 anos na Baratos Afins, selo que gravou Itamar Assumpção e uma leva imensa do punk rock 80’s, e que ainda funciona como loja de música, em atividade na Galeria do Rock, capitaneado pelo heróico Luiz Calanca. Durante esses anos, ouvi o álbum uma infinidade de vezes – gravado ao vivo, com piano (Arnaldo), baixo (Liminha) e bateria (Dinho - os dois últimos ainda integrantes dos Mutantes) a sonoridade do álbum lembra um Jerry Lee Lewis tropicalista & psicodélico, com letras absolutamente dadaístas e com muito humor (acho que não existe dadaísmo sem humor), como a que abre o disco, onde Arnaldo se questiona: Será que eu vou virar bolor????.
Não vou discorrer sobre o documentário, um dos mais emocionantes que já assisti na minha vida; acho que todo mundo que gosta de música brasileira deveria assisti-lo. O que me interessa e incomoda é o desconhecimento absoluto da obra de um cara genial como Arnaldo em função de sua “estranheza”. O ostracismo que viveu na segunda metade da década de 70, assim como o que viveu Tom Zé, Jards Macalé, Sérgio Sampaio, entre outros, é decorrente de um não entendimento artístico de soluções estéticas inovadoras. Artistas que não fazem concessões. Por essa razão o Chico Buarque e o Caetano, por exemplo, sempre estiveram em voga – o primeiro pelo seu “parnasianismo Belle Époque”, em contraponto às suas composições transgressoras; o segundo pelas sempiternas gravações de Peninhas e afins.
Durante a década de 70, Arnaldo amargou anos em uma constante e profunda depressão, ocasionada, sobretudo, por seu rompimento com Rita Lee, com os Mutantes (já em sua fase 100% progressive rock, quando foram morar na Serra da Cantareira) e pelo uso contínuo e desbragado de LSD e outras drogas. O Arnaldo que emergiu desse cenário aparentava um aspecto doentio, desconectado com a “realidade”, mas ainda genial em suas composições.
Não conheço ninguém que tenha o álbum “Loki”, que comprei aos 20 anos na Baratos Afins, selo que gravou Itamar Assumpção e uma leva imensa do punk rock 80’s, e que ainda funciona como loja de música, em atividade na Galeria do Rock, capitaneado pelo heróico Luiz Calanca. Durante esses anos, ouvi o álbum uma infinidade de vezes – gravado ao vivo, com piano (Arnaldo), baixo (Liminha) e bateria (Dinho - os dois últimos ainda integrantes dos Mutantes) a sonoridade do álbum lembra um Jerry Lee Lewis tropicalista & psicodélico, com letras absolutamente dadaístas e com muito humor (acho que não existe dadaísmo sem humor), como a que abre o disco, onde Arnaldo se questiona: Será que eu vou virar bolor????.
Não vou discorrer sobre o documentário, um dos mais emocionantes que já assisti na minha vida; acho que todo mundo que gosta de música brasileira deveria assisti-lo. O que me interessa e incomoda é o desconhecimento absoluto da obra de um cara genial como Arnaldo em função de sua “estranheza”. O ostracismo que viveu na segunda metade da década de 70, assim como o que viveu Tom Zé, Jards Macalé, Sérgio Sampaio, entre outros, é decorrente de um não entendimento artístico de soluções estéticas inovadoras. Artistas que não fazem concessões. Por essa razão o Chico Buarque e o Caetano, por exemplo, sempre estiveram em voga – o primeiro pelo seu “parnasianismo Belle Époque”, em contraponto às suas composições transgressoras; o segundo pelas sempiternas gravações de Peninhas e afins.

Daí a pecha “marginal”. Marginais. Os artistas são as antenas da raça, dizia o poeta e crítico norte americano Ezra Pound. Mas parece que essas antenas por vezes remetem ao Gregor Samsa de “A Metamorfose”, de Franz Kafka. Há um misto de asco e fascinação com artistas que parecem absolutamente novos, e acho que foi o que aconteceu com Arnaldo. Por vezes, é melhor enterrar vivo um gênio para que ele não “desafine o coro dos contentes” (dixit Torquato Neto).
Depois do álbum “Loki”, Arnaldo compôs e tocou todos os instrumentos no álbum “Singing Alone”, de 1979. É um álbum ainda mais assombroso, repleto de pequenas delicadezas, amargura, humor – um dicionário afetivo da vida de sua vida, de suas influências estéticas e musicais. A música que abre o álbum, “I fell in love one day”, só voz e piano, já não lembra o entusiasmo juvenil e iconoclasta de um Jerry Lee, mas sim um Erik Satie melancólico, fin-de-siécle, desfiando amargura na letra composta em inglês: “I fell in love one day/ to a lady so cool/ she had all the magic serpents/ohhhhh/”.
O mais importante de todo esse papo é que Arnaldo está lúcido, após ter sido “ressuscitado” por sua mulher e anjo da guarda, Lucinha. E me parece extremamente feliz. Ele conseguiu um feito: personificou a sua canção mais conhecida, “Balada do Louco”. E segue assoviando melodias inauditas por aí.
Depois do álbum “Loki”, Arnaldo compôs e tocou todos os instrumentos no álbum “Singing Alone”, de 1979. É um álbum ainda mais assombroso, repleto de pequenas delicadezas, amargura, humor – um dicionário afetivo da vida de sua vida, de suas influências estéticas e musicais. A música que abre o álbum, “I fell in love one day”, só voz e piano, já não lembra o entusiasmo juvenil e iconoclasta de um Jerry Lee, mas sim um Erik Satie melancólico, fin-de-siécle, desfiando amargura na letra composta em inglês: “I fell in love one day/ to a lady so cool/ she had all the magic serpents/ohhhhh/”.
O mais importante de todo esse papo é que Arnaldo está lúcido, após ter sido “ressuscitado” por sua mulher e anjo da guarda, Lucinha. E me parece extremamente feliz. Ele conseguiu um feito: personificou a sua canção mais conhecida, “Balada do Louco”. E segue assoviando melodias inauditas por aí.
Rodrigo Saffuan
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