
"Situations have ended sad, relationships have all been bad. Mine have been like Verlaine's and Rimbaud" (Dylan)
i.ma.go sf (lat imago) Entom Inseto em seu estádio final, adulto, sexualmente maduro, comumente alado. sm Psicol Modelo, justificado ou não, de uma pessoa amada, formado na infância e que se conserva sem modificação na vida adulta.
"Sou uma metralhadora em estado de graça"

“(...) Não esquecer que a estrutura do átomo não é vista, mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi”.
A sentença acima foi escrita por Clarice Lispector no livro “A hora da estrela”. Acabei de lê-la no trecho final da magnífica biografia escrita por Benjamin Moser, “Clarice,”.
Recorro a ela para justificar alguns pontos de vista sobre determinados aspectos da cultura da nossa época.
Acabo de ver o trailler do filme “Alice no país das Maravilhas”, do incensado diretor Tim Burton. Para mim, o trailler basta, assim como as primeiras páginas de um livro. Não gostei do que vi.
A delicada fantasia do livro foi travestida por um universo gótico, delirantemente carregado. Claro que o hype da temporada será assistir o filme com óculos 3D (o Ruy Castro outro dia escreveu que em 1955 a tecnologia já era tão obsoleta quanto o bilboquê), com ou sem aditivos químicos, e propagar e tecer loas via Twitter e Facebook sobre a atuação chapada do Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco.
Você compra o pacote fechado. Um combo, pipoca, chocolate e refrigerante: Alice + 3D + Johnny Depp o-senhor-doidão-de-Hollywood+ Tim Burton. Sucesso de bilheteria antes da estreia. Sei de algumas coisas que não vi por inteiro.
Parece que vou assistir “Crônicas de Nárnia” ou o “Senhor dos Anéis”. Uma sensação de "Dejá Vú de Cinemark", conhece essa sensação?
Os filmes não têm especificidade, não tem fantasia, não tem uma visão original (não precisa ser fidedigna) sobre a obra. Há preguiça mental por parte dos espectadores, pois pensam que a fantasia & o universo onírico só podem ser supridos por toneladas de efeitos especiais, maquiagens futuristas, etc. Perde-se o encanto, a SUTILEZA.
Mas o kitsch predomina. Walt Disney, vocês esperavam o quê?
Por exemplo: o diretor Ridley Scott, em “Blade Runner”, utiliza a ficção científica e os efeitos especiais com maestria, pois tinha algo a dizer sobre a distopia do livro que inspirou o filme. Isso é arte. Mas, se querem entretenimento besuntado de manteiga, tecnologia, e dólares, ok. Alice comporta todos esses quesitos.
E , só pra constar, a música da trilha sonora que está sendo "trabalhada" comercialmente é da musa adolescente Avril Lavigne. Legal né? E uma versão de "Whitte Rabitt", do Jefferson Airplane, por "Grace Potter and the Nocturnals", manja? Ah, e tem a banda mais poser da história, o "Tokyo Hotel", um híbrido horrendo de hair metal, emo e animé japonês. E o clássico gótico Robert Smith. Bom, Tim Burton tem mesmo um pé na cova, e quis fazer um filme que dissesse mais sobre seus gostos do que sobre a obra de Lewis Carrol.
Resumindo: talvez por isso “Avatar” tenha feito aquele sucesso de bilheteria, mas fracassou no Oscar. O geek James Cameron sabe o que a plateia deseja. Quando vi o trailler daqueles horrendos monstros kitsch, azuis e com cara de cavalo, falei pra mim mesmo: Não, obrigado. Cansei.
“Já comi muito da farinha do desprezo. Como é forte o gosto da farinha do desprezo. Só vou comer agora da farinha do desejo.”
Acompanhando a “retomada” do cinema nacional na última década, alguns documentários importantes regsataram a memória musical de idiversos artistas brasileiros: Titãs, Simonal, Arnaldo Baptista e Paulo Vanzolini foram alguns dos agraciados. Principalmente no caso do resgate artístico de Simonal, devido à sua controversa história de ostracismo, que envolveu gorilas do DOPS e o espancamento do seu contador.
No entanto, parece que essa febre de documentários musicais está prejudicando o rigor no tratamento do enredo e uma abordagem mais complexa da obra do artista, como é o caso de “Jards Macalé: um morcego na porta principal”, de Marco Abujamra e João Pimentel.
Na primeira cena do filme, Jards está literalmente puto e desconfiado com os critérios utilizados na escolha dos entrevistados, e ameaça, inclusive, processar os autores caso não gostasse do resultado final.
(Obs: E, novamente, entrevistaram o Nelson Motta, com seu indefectível óculos escuros. Sabemos da importância de Nelsinho na história da música popular brasileira. Mas não para TODOS os artistas, e nem para agregar histórias a todos os documentários. Parece escolha de universitário que vai realizar TCC, que sempre vê as mesmas referências.)
“Mas você tem medo de quê?”, pergunta uma voz em off, para Jards. “De que vocês desconstruam tudo que fiz durante a minha vida. A minha própria vida”. Não chega a tanto, até pelo fato do filme ter sido liberado por ele. Mas há hiatos que comprometem a sua apresentação ao grande público (acho que os documentários servem pra isso), já que se trata de um artista de trajetória conturbada.
A discografia do músico é praticamente ignorada. Não há uma cronologia dos seus álbuns, nem mesmo as histórias sobre as circunstâncias em que foram forjados. As músicas são tocadas sem nenhuma referência ou contextualização, somente nos créditos finais.
Algumas imagens de shows recentes de Jards dão uma impressão da intensidade do violão neurótico e da carga dramática de suas interpretações. Mas nem mesmo as imagens de arquivo da clássica interpretação de “Gotham City” (parceria com Capinam), no IV Festival Internacional da canção foram resgatadas. Por outro lado, as imagens de super 8 arquivadas pelo autor são uma constante em determinado momento, para preencher esse vácuo.
O documentário foca as excentricidades de Jards e as origens do estigma que levaram à sua pecha de maldito e músico irascível. Jards e seus amigos (Zé Celso - o mais contundente de todos - Capinam, Luiz Melodia, Jorge Mautner, Abel Silva, Hermínio Bello de Carvalho) deixam claro que insubmissão à indústria fonográfica e autenticidade não coadunam com maldição ou marginalidade, mas sim compromisso de vida inteira com uma ética pessoal e intransferível (relembrando Torquato Neto, seu grande amigo e parceiro).
“Maldito é a mãe. Eu lutava por um mínimo de liberdade diante daquela ditadura maluca. Malditos mesmo eram Baudelaire e Rimbaud, essa galera da pesada, que até hoje esse pessoal não conhece. Vá ao dicionário e procure o significado da palavra maldito”, afirma com veemência Jards. Logo depois, o artista é filmado com uma camiseta do Superman, fumando um baseado, o que acaba por reforçar essa mesma imagem.
Positivamente, o filme tem histórias impagáveis de Jards ao lado de Moreira da Silva, contadas em entrevista feita por Jaguar; a história do memorável disco “O banquete dos mendigos”, em 1973, que celebrou os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos em plena ditadura militar (que censurou o próprio texto da Declaração, lido pelo poeta Ivan Junqueira), e imagens do parceiro Waly Salomão.
Mas a imagem inicial do filme, onírica, com Jards e sua mãe em uma cadeira de balanço, vale por uma vida inteira.